Serenando a mente em momentos de incerteza

O controle é uma ilusão, mas é uma ilusão confortável. Nossa mente consciente precisa dela para operar eficientemente.

A mente consciente é simplificadora, porque a simplificação é necessária à sobrevivência.

O efeito colateral da simplificação é que somos enganados com relativa facilidade. Alias, os prestidigitadores (os mágicos de palco), se utilizam dessa característica para nos encantar com seus truques.

A senhora ou a jovem: quem você vê primeiro?

Talvez a forma mais simples de vivenciarmos, de forma consciente, essa estratégia do cérebro para estabilizar a percepção da realidade de forma a que possamos interagir com ela sejam as brincadeiras de ilusão de ótica ou de “figura e fundo” (como a do desenho que ilustra o texto).

Em ambos os casos, nosso cérebro recebe informações que podem ser interpretadas de formas diferentes e “escolhe” uma delas, estabilizando a versão.

Mas, em nossa interação diária com o mundo que nos cerca, fazemos isso de forma muito mais sofisticada, ininterruptamente. Nossa percepção de cor é um bom exemplo. A percepção de cor depende da pigmentação do objeto e da incidência e reflexão da luz, variando constantemente durante nossa observação. Nosso cérebro estabiliza a percepção da cor e só altera esse registro quando a variação é significativa. É esse fenômeno que explica as diferentes percepções dos famosos casos do vestido e do tênis, que viralizaram nos anos passados.

O vestido é branco e dourado ou azul e preto? O tênis é cinza e verde ou rosa e branco?

Nossa memória também tem um papel importante para a estabilização da realidade. É a partir dela que construímos a percepção a partir de fragmentos de informação. Observamos uma a ponta do controle remoto, perdido no vão do sofá, e sabemos que é o aparelho que procuramos. Vislumbramos uma luz forte atrás das nuvens à noite e reconhecemos a lua.

Quando esses processos de simplificação não são capazes de explicar a realidade ou antecipar o futuro, ficamos ansiosos. Quanto maior a incerteza e mais significativo o evento, maior a nossa ansiedade.

É o que estamos vivendo nos dias de hoje, quando enfrentamos a pandemia da Covid-19, um fato absolutamente novo, para o qual temos poucas referências úteis para simplificar a realidade e interagir com ela. Perdemos a ilusão do controle e, subitamente, a realidade se torna desconhecida e ameaçadora.

Nesse momento, é importante ter a consciência de que a sensação de controle que tínhamos antes do episódio era ilusória. Era apenas uma simplificação, possível de ser construída por nossa mente porque as variações das percepções não eram significativas. Nossa vida era uma tediosa, mas confortável, repetição diária de eventos, sobre os quais não tínhamos controle, mas que, ainda assim, se repetiam com pequenas variações.

Ter essa consciência nos ajuda a aceitar melhor a nova situação. Se já não tínhamos controle, mas convivíamos bem com isso (ainda que sem saber), não irá demorar muito para que nossa mente recolha informações suficientes para produzir novas simplificações da realidade e reduzir nosso nível de ansiedade.

A primeira arma para enfrentar a ansiedade é estar consciente de sua origem e poder exercitar a paciência. Quando não fazemos isso, a ansiedade se retroalimenta e cresce muito, podendo nos levar a um estado de pânico.

Quando estamos muito ansiosos, sem perceber, prendemos a respiração ou, ao contrário, respiramos rapidamente, com inspirações mais curtas. Nos dois casos, as alterações orgânicas, causadas pela respiração inadequada, levam a mensagem de perigo ao cérebro, e despertam a sensação de que algo precisa ser feito com urgência. É nesse instante que a sensação de pânico se instala.

A respiração profunda e pausada é a arma mais eficiente para controlar, pontualmente, a sensação de ansiedade e seus efeitos sobre o organismo.

O terceiro recurso de que dispomos para atenuar a ansiedade é a distração. Executar tarefas simples e conhecidas, mas que requerem atenção, captura a atenção da mente consciente que volta a operar no modo simplificador e, com isso, pode descansar. Ler, assistir filmes, conversar ou trabalhar também são alternativas distrativas, mas dependendo do nosso nível de ansiedade, talvez seja difícil dedicar-nos a essas atividades. Atividades motoras simples, como lavar pratos ou varrer a casa, costumam funcionar melhor.

E, enquanto utiliza esses recursos, é importante se manter informado, mas sem obsessão. Escolha uma fonte de informação e um horário no dia para se atualizar. Mais do que isso pode alimentar sua ansiedade. Lembre-se de que a informação é importante para que sua mente possa construir, gradativamente, uma nova simplificação de mundo para você.

É importante ressaltar que não estou me referindo aqui à ansiedade patológica, crônica ou aguda, para qual se recomenda atendimento psiquiátrico e medicação.

O que enfrentamos hoje é a ansiedade natural que surge diante de um grande evento, desconhecido e ameaçador, que costuma afetar, mais intensamente, as pessoas organizadas, que têm uma rotina planejada e uma vida equilibrada.

Minha recomendação, complementar ao que já mencionei, é a de que, quando o nível de ansiedade estiver razoavelmente sob controle, se experimente praticar a meditação, que é o melhor exercício para serenar a mente.

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© 2020 by Flávio Ferrari