O dinossauro que nos habita

Como lidar com o lado “animal” das pessoas, incluindo o seu?

Você já deve ter enfrentado pessoas muito agressivas, que nem parecem racionais. Elas, provavelmente, não concordarão com sua avaliação de que estão agindo irracionalmente, principalmente se você manifestar sua opinião durante uma discussão.

Se formos honestos, é bastante provável que identifiquemos momentos em nossas vidas nos quais também nos comportamos assim.

Nossas atitudes resultam de uma combinação entre a razão, a emoção e o instinto (nossa programação para preservação da espécie).

A razão é o que nos permite sermos seres civilizados, sensatos, lógicos, disciplinados, produtivos e sociais.

A emoção é o que traz o colorido para a vida, qualificando as experiências sensoriais e construindo relações afetivas.

O instinto é o que garante nossa sobrevivência, lembrando-nos de comer, de nos proteger, de procriar, de lutar e descansar.

A agressividade, embora tenha componentes racionais e emocionais em sua origem, é essencialmente instintiva. Ela é a resposta ao que interpretamos como ameaça.

Acredita-se que uma pequena estrutura do cérebro, a amigdala cerebral, seja responsável por comandar nossas reações diante das ameaças. Ela seria o nosso cérebro de dinossauro.

Nosso “instinto de defesa” promove três reações possíveis diante de uma ameaça: fuga, luta ou paralização (essa terceira costuma ser pouco eficiente).

E o conceito de ameaça transcende o óbvio, como um inimigo armado, um animal feroz ou a iminência de um desastre.

Nas relações sociais, as disputas por território, prestígio e poder são consideradas ameaçadoras, e sinais sutis podem estimular nossas reações instintivas de defesa e despertar a agressividade.

Afirmações tão simples como “isso sou eu quem decide”, “você tem que entender que”, “a regra aqui é”, “o correto seria você”, bastam para acordar nossas amigdalas. Nossos músculos ficam mais tensos, os batimentos cardíacos aceleram, aumenta a adrenalina e estamos prontos para reagir. Enquanto isso, emoção e razão se digladiam para decidir se atacamos ou fugimos.

As atitudes que despertam nosso dinossauro são comuns em nosso cotidiano. Fofoca, insinuação de culpa ou desonestidade, críticas ou exposição de questões sensíveis em público, desrespeito à hierarquia, recusa de ajuda, mentiras, desatenção, desvalorização, arrogância e prepotência são alguns exemplos. E, muitas vezes, fazemos isso sem nos dar conta, provocando os dinossauros mais sensíveis.

O pior acontece quando deixamos que o nosso dinossauro assuma o comando da conversa. É importante estarmos atentos aos sinais de que isso está acontecendo, reconhecendo os padrões de nossa impulsividade, e recorrermos à razão para controlar a situação e manter o foco no desfecho que realmente desejamos para o encontro.

Se você não quiser agir como um dinossauro, pode usar alguns truques durante o embate.

Preste atenção em você, contenha sua reação imediata, pergunte-se aonde quer chegar, dê espaço para que o outro manifeste suas insatisfações, não se assuste com a fúria, não reaja a provocações, peça mais explicações, mantenha distância física e não invada o território do outro, não se coloque numa posição defensiva, explicando-se, mas pergunte o que o outro espera de você. Deixe que o outro tenha a última palavra e peça um tempo para pensar, retomando o assunto quando as coisas estiverem mais serenas. Com um dinossauro não há espaço para conversa, porque ele não pensa e não negocia. Não vale a pena argumentar. Se gastar seus argumentos no momento do embate, eles serão menos eficientes mais tarde.

"A melhor forma de vencer um dinossauro é não se engajar em uma luta direta."

E quando o nosso dinossauro nos possui, naquele momento de raiva?

A saída é tentar resgatar um pouco da sensatez fazendo algumas perguntas:

Você está com raiva do que mesmo?

Existe razão concreta para toda essa raiva?

Você está brigando com a pessoa certa?

Está manifestando a raiva de modo razoável?

Vai dar o direito de resposta no mesmo nível?

Precisa de plateia? É para resolver o assunto ou é para humilhar o oponente?

Quando você está com raiva, quem é que está no controle?

Sempre é bom ter em mente que os dinossauros lutam até a morte e que a melhor forma de vencer um dinossauro é não se engajar numa luta direta.

Mas, se for inevitável enfrentar um dinossauro, e você for capaz de controlar o seu, uma boa dica é lembrar que os dinossauros são territorialistas. Se possível, traga o encontro para o seu território ou para um espaço público, e ofereça outras distrações para acalma-lo ou desviar sua atenção.

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© 2020 by Flávio Ferrari