Winner X Looser | o sucesso e o fracasso

Há pouco mais de uma década, encontrei um amigo num evento que afirmou que eu era um exemplo de sucesso, para ele e para outros colegas de profissão.

Na época, como CEO de uma grande empresa, ganhava muito bem, mas estava bastante insatisfeito com as decisões dos acionistas e com o rumo que pretendiam que eu desse à empresa. Não estava conseguindo convencê-los de que as decisões eram equivocadas e não estava disposto a comandar o Titanic em direção ao iceberg.

Minha resposta à observação do amigo foi a de que, naquele momento, me considerava um exemplo de fracasso bem remunerado.

A forte influência da cultura norte-americana (made in USA), transmitida através dos filmes e séries que assistimos desde pequenos, incute-nos a ideia de que o mundo está dividido entre os vencedores e os perdedores. Se você não consegue ser o melhor naquilo que faz (“winner”), você fracassou e é um perdedor (“looser”).

No Brasil, essa dicotomia costuma ser referenciada por palavras um pouco menos elegantes: fodão (“winner”) e o bosta (“looser”). Considerando que o conceito nasceu em língua inglesa e que me sinto ligeiramente desconfortável para utilizar a nomenclatura nacional no texto, seguirei com a anglofônica (você pode fazer a substituição durante a leitura, se preferir).

É interessante perceber que o winner não existe sem o looser, e vice-versa. É preciso acreditar no mito do winner para se sentir um looser, e é necessário colocar os outros na posição de loosers para se sentir um winner.

De um modo geral, lá no fundo, convivemos com algum nível de sensação de fracasso.

"A realidade raramente corresponde às nossas expectativas."

Algumas pessoas reagem a isso criticando (e, até, humilhando) as pessoas à sua volta e apontando os defeitos de quem se destaca. É uma maneira de diminuir a sensação de fracasso. Eu não sou o “winner”, mas todo mundo é “looser”.

Outras fazem o oposto e se desvalorizam ao extremo, acreditando que outros são sempre melhores. São vítimas eternas, para as quais a nossa matriz cultural e religiosa, que faz de todos pecadores, justifica o fracasso.

E entre os dois grupos estamos nós, a maioria dos brasileiros, que não vemos alternativa senão a de tentar conquistar um pouco mais a cada dia, seguindo o caminho dos “winners”, mesmo sem muita convicção de que conseguiremos chegar lá.

E como o “lá” é um tanto vago, cada vez que alcançamos alguma meta nos parece haver um lugar melhor para ir. Nossa busca é vitalícia.

Um amigo costumava dizer uma frase emblemática para esse tipo de situação: “perdidos os objetivos, redobraremos os esforços”.

Não pretendo convencer ninguém a deixar de acreditar em “winners” e “loosers”. Mas quero alertar para o fato de que, acreditando nisso, você terá que conviver com a permanente sensação de “looser”. É inevitável. Ainda que enriqueça, conquiste a fama, ganha um Oscar ou um Nobel, conviverá com a ideia de que, em algum lugar, existe um “winner” que faz de você “looser”.

"Mesmo quando estiver no topo, acreditará que, em algum lugar, existe alguém melhor do que você."

Vencer essa síndrome não é fácil. Embora a receita seja simples, o conceito tem raízes profundas em nossas mentes e é alimentado pelo inconsciente coletivo.

Mas, vale a pena tentar.

O primeiro passo é definir objetivamente o que faz você feliz, ou o que dá sentido para sua vida. Observar os momentos em que sentiu maior plenitude até agora costuma ajudar nessa identificação.

O almoço de domingo com a família, o beijo da pessoa amada, o vislumbre de uma paisagem maravilhosa, a palestra daquela pessoa incrível, aquela manhã em que você dormiu até bem tarde, um mergulho no mar em um dia de verão, a sensação de haver ajudado alguém, vale qualquer coisa.

Nesses pequenos momentos só seus, de plenitude, que não poderiam ser melhores, você foi “winner”. Não havia ninguém na sua frente, e ninguém poderá tirar isso de você.

Observar com atenção a esses momentos irá ajudar a mudar a referência do que é ser “winner”. Gradativamente, o mundo deixa de estar dividido entre “winners” e “loosers”, porque essa sensação de plenitude é de cada um, e não é referenciada pelo outro.

E se você dedicar sua vida a colecionar momentos de plenitude, irá perceber que isso faz muito mais sentido do que perseguir os modelos de sucesso social. Na verdade, vai pensar cada vez menos em ser um “winner”, até o momento em que não acreditará mais em “winners”, pelo menos não do modo clássico.

Independentemente dos objetivos que estabeleceu para sua vida, vai sentir que o prazer de caminhar é mais importante do que alcançar. Vitória não é mais ganhar de uma outra pessoa. É viver, aqui e agora, um momento de plenitude sensorial.

Para quem isso não parece fazer sentido, eu proponho um exercício de descoberta.

Dedique 30 minutos por dia, nos próximos 7 dias, a fazer algo sensorialmente agradável. Pode ser degustar um sorvete com coberturas, receber uma massagem relaxante, tomar um banho gostoso, ou qualquer outra coisa que dê prazer sensorial. E você precisa assumir o compromisso de, durante esse minutos, dedicar 100% de sua atenção ao que está fazendo e sentindo. Esqueça todo o resto da sua vida. Você voltará a cuidar dos problemas e das oportunidades depois desse pequeno intervalo.

Se isso não ajudar, pode me procurar que pensamos em outro plano.

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© 2020 by Flávio Ferrari