Narciso e o verdadeiro perigo dos espelhos

Na mitologia grega há várias versões sobre a história de Narciso, homem de beleza inigualável, filho de um deus e de uma ninfa, que se apaixona por sua imagem refletida na água de um rio e perde o interesse pela vida.

Os enredos, razões e motivos variam de acordo com cada autor, mas o ponto comum é sempre o encantamento pela própria aparência levando nosso herói à morte.

Já imaginaram um mundo sem espelhos?

Os primeiros espelhos, confeccionados em metal polido, datam de 2 a 3 mil anos antes do início da era cristã. Pouco tempo, se considerarmos que a história da nosso espécie tem por volta de 300 mil anos. Espelhos de vidro, com uma precisão de reprodução semelhante aos que temos hoje, só começaram a ser produzidos em escala comercial há menos de 700 anos, em Veneza.

Antes da criação desse artefato trivial, a única maneira de avaliarmos a nossa aparência era através da reação que causávamos em outras pessoas. Não apenas isso, mas também precisávamos da ajuda de outras pessoas para garantir que sairíamos bem arrumados de casa.

Essa dependência, naturalmente, nos conectava aos outros. Sem espelhos, ficávamos mais atentos aos sentimentos e percepções.

As histórias gregas costumam ser ricas em mensagens sobre as questões significativas da psique humana.

A história de Narciso é comumente associada à vaidade, mas ela vai muito além disso.

Ela fala do individualismo, da insegurança, da fragilidade, da dependência que temos de outras pessoas para desenvolver o amor próprio e das armadilhas dos excessos (os filósofos gregos condenavam tudo que fosse excessivo).

Também fala da persona, do ser social que criamos para apresentar ao mundo, e das consequências de nos apaixonarmos pela imagem que criamos. Narciso, apaixonado pela própria imagem, deixa de existir.

O mito de Narciso é menos uma história sobre a vaidade, e mais um chamado à reflexão sobre a liberdade de ser, sem julgamentos, fora da prisão das aparências.

Mas os espelhos estão aí, espalhados pelo mundo, inevitáveis, reforçando nossa necessidade de encantar pela aparência e, via de regra, minando nossa autoestima.

Escolhemos aparentar o que não somos e essa mentira nos corrói, lentamente.

Narciso morre de desgosto, não pela vaidade, mas porque seu reflexo não está vivo.

Ainda bem que os gregos nos deixaram sua história como um alerta.

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