Romantizam tudo e ninguém se ama

Nosso tema foi inspirado pela afirmação da Luiza em um post, no seu perfil do Instagram.

Ela tem o mérito de fazer a distinção entre romance e amor, que nem sempre é clara para nós, acostumados ao ideal do amor romântico.

Amor é um conceito vago e, por isso mesmo, complexo.

Explicar o que é amor é mais difícil do que descrever o sabor de uma laranja para alguém que nunca comeu uma fruta.

Um de meus psicanalistas (tive quatro ao longo da vida), me ajudou a conceber a primeira definição com a qual me satisfiz por alguns anos. Ele me disse: “amar alguém é ter um legítimo interesse por sua felicidade”.

O amor seria, então, esse sentimento, esse desejo altruísta de que a outra pessoa seja feliz.

Mais tarde, com a maturidade e as vivências tântricas, tive a oportunidade de experimentar outras sensações amorosas, mais amplas e inclusivas. O exercício de se reconhecer na outra pessoa, e reconhecê-la em nós, desarticula a individualidade e abre as portas para um sentimento de amor universal. Um amor pela existência, que se estende a tudo o que nos cerca.

Mas voltemos ao trivial, para o momento.

Importante fazer uma diferenciação entre o amor, a paixão e o desejo. E para não deixar que o texto fique muito longo, creio que podemos concordar que querer o bem do outro é o elemento essencial e distintivo do amor. O desejo, a posse, os ciúmes, o tesão, a vontade de constituir uma família, tudo isso que associamos ao amor são, na verdade, outros sentimentos complementares.

É natural que, ao amar uma pessoa, desejemos sua proximidade física com frequência. Ficamos felizes com a presença e nossa felicidade se conjuga com a felicidade que desejamos propiciar.

E é aí que começa a ideia do amor romântico, da felicidade conjugal idealizada.

Vale comentar que esse ideal romântico é relativamente novo na história recente da humanidade.

Até o século XVIII os casamentos eram predominantemente arranjos para assegurar a consolidação e a transmissão do patrimônio. Casar-se “por amor” era uma raridade. Os casamentos eram decididos por conveniência ou, muitas vezes, para sobrevivência. O afeto recíproco e o desejo carnal aconteciam, eventualmente, fora do casamento.

Foi o Romantismo, o movimento artístico, cultural, filosófico e político que dominou o pensamento ocidental a partir do final do século XVIII e durante o século XIX, que nos trouxe a fantasia da relações perfeitas, das paixões correspondidas, do sexo erótico e dos instantes eternizados. No amor romântico, o outro não é uma pessoa real. É um personagem que corresponde às nossas expectativas.

Claro que, de início, isso era apenas um devaneio. Algo como sonhar com o que você faria se ganhasse na loteria. Você sabe que a chance de acontecer é remota, mas sonhar ajuda a enfrentar as agruras do cotidiano e viver melhor o que temos para o momento.

"No amor romântico, o outro é um personagem que deve corresponder às nossas expectativas."

Entretanto, as novas gerações ocidentais, a partir do século XX, inspiradas pelos ideais românticos e estimuladas pelas transformações da era moderna pós-guerras, com seu positivismo, utilitarismo, existencialismo e ideais de igualdade e liberdade, decidiram viver esse sonho de perfeição.

Nossa cultura, após 100 anos de prática, incorporou o amor romântico como justo e verdadeiro. E o casamento romântico passou a ser a ideia central de nossas vidas.

Eu diria que, até o final do século passado, nos esforçávamos muito para sustentar esse ideal, desempenhando os papeis correspondentes à história romântica que gostaríamos de viver.

Mas a expectativa é a mãe da frustração e, sempre que a outra pessoa não se comporta de acordo com o que idealizamos, o sonho fica comprometido. O amor se transforma em rancor.

O amor romântico não está ancorado no desejo da felicidade do outro. Ao contrário, sua essência reside no desejo de que a outra pessoa fique feliz em desempenhar o papel correspondente à sua idealização.

Daí a profundidade da frase da Luiza: romantizam tudo e ninguém se ama.

Entramos no século XXI desapontados com o ideal romântico, e isso pode ser o início de uma transformação positiva para as relações afetivas dos casais. A semente de um verdadeiro compromisso com a felicidade e o bem estar, que respeite os desejos e necessidades de cada um.

Tive a oportunidade de ser o celebrante de uma cerimônia de casamento não religiosa de um casal de amigos, no início deste ano.

Os “votos” trocados pelo casal, durante a cerimônia, representam esse novo pensamento:

“Quero te ver feliz.

Quero estar ao seu lado e contribuir para que isso aconteça.

Quero compartilhar minha vida com você. Quero rir e chorar, abraçar e beijar, e viver cada momento com intensa serenidade e entrega.

Que este seja o nosso encontro, e que esta seja a nossa jornada.

Amo você.”


(ps.- quem se interessar sobre o tema, do ponto de vista sociológico, pode ler "Nova Ordem Sexual" , a tese de mestrado em Sociologia do Rodrigo Ferrari, meu filho)

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