Os diferentes modos de pensamento

As pessoas não vêm o mundo da mesma forma, e isso define o modo pelo qual se relacionam com a realidade percebida e com o que está ao seu redor.

Sabe aquele momento em que você discute com uma pessoa que considera “inteligente” e, por mais que explique seu ponto de vista, que para você é uma verdade cristalina, ela não é capaz sequer de compreender seus argumentos? Muito provavelmente, essa pessoa tem um outro modo de pensamento.

O modelo que uso a seguir é uma simplificação, para facilitar o entendimento da situação.

Defini 4 modos de pensamento (que chamei de MoPe), inspirados por outros modelos descritivos como a Espiral Dinâmica (Ken Wilber), a Pirâmide das Necessidades (Maslow) e os Chakras (cultura Hindu). Tal qual num bolo, poderia ter feitos outros cortes, mas isso alongaria a conversa desnecessariamente.

É provável que você não se sinta representado (a) por nenhum dos quatro modelos, mas certamente ficará mais confortável se puder ficar entre dois (uma fatia mais fina do bolo).


Pessoas com MoPe Instintivo têm dificuldade para compreender a lógica do mundo em que vivem e corresponder às expectativas sociais e profissionais. Para sobreviver, contam apenas com seu instinto, e ajustam suas ações a partir dos resultados, desenvolvendo superstições. Esse era o modo predominante de pensamento no período Paleolítico, quando andávamos em pequenos bandos e tínhamos poucos recursos.

Pessoas com MoPe Absolutista concebem uma lógica própria para o mundo. A superstição ´da lugar à religião, como fonte de explicação para tudo. Impor a ordem é a forma de encaixar o mundo em sua lógica, e a sociedade se divide entre os que “sabem” e mandam, e os que escutam e obedecem, e todos se beneficiam pela compreensão. O mundo, agora, faz sentido. Esse vem sendo o modo de pensamento predominante nos últimos 10 mil anos, e permitiu a construção do que chamamos de civilização.

Pessoas com MoPe Relativista refutam verdades absolutas e acreditam que podemos construir juntos um futuro melhor para a humanidade. São pragmáticas e acreditam que a ciência será capaz de resolver os problemas do mundo. Encaram a democracia como a melhor forma de governança, preocupam-se com a diversidade e são inclusivas. O mundo é visto como a nossa casa, e precisamos cuidar bem dele. Esse modo de pensamento vem ganhando espaço nos últimos 300 anos e já é predominante em algumas sociedades modernas com alto índice de desenvolvimento social, onde a sobrevivência e a ordem estão garantidas.

Pessoas com MoPe Holístico entendem que tudo está conectado nesse Universo, formando um sistema único de interrelações. Aceitam a incerteza e o caos como parte da natureza e consideram que a ciência, com toda sua evolução, não será capaz de explicar tudo e controlar o Universo. Não deixam de valorizar a ciência e a tecnologia, mas convivem bem a perspectiva da eterna ignorância e valorizam as experiências sensoriais como forma de ampliar sua percepção. Esse modo de pensamento começou a ganhar expressividade nos últimos 50 anos.

É fácil perceber que uma pessoa de MoPe Relativista terá muita dificuldade para aceitar os argumentos supersticiosos do MoPe Instintivo, assim como um Holístico terá pouca afinidade com as explicações da lógica Absolutista.

"Compartilhamos o planeta, mas vivemos em mundos mentais distintos."

Mas convivemos em sociedade e, em situações “normais”, conseguimos nos entender com nossos vizinhos, principalmente os de MoPe mais próximos, ainda que, com bastante frequência, tentando convencê-los a aceitar nossa visão de mundo. Além disso, carregamos no inconsciente coletivo todas as formas de pensamento, o que ajuda a compor nosso modo social (MoSo).

Entretanto, em momentos de crise, tendemos a ser menos “tolerantes”. O sentido de urgência nos traz de volta para o modo de pensamento essencial, sobre o qual temos menos incertezas e que vem nos servindo bem para lidar com a realidade.

E é nesse instante que as posições se polarizam, que deixamos de ouvir o outro, porque a sobrevivência está em jogo e não é hora para tentar negociar uma visão de mundo comum. É hora de agir, de fazer alguma coisa com urgência. Mas a questão é que, quando enxergamos o mundo de forma diferente, nem sempre é possível concordar sobre o que precisa ser feito.

Não é incomum nos decepcionarmos com amigos e familiares, incapazes de entender o quanto estão “errados” em suas conclusões e ações.

Acredite, eles estarão pensando a mesma coisa a seu respeito.

A melhor coisa a fazer, quando a emergência passar, é entender que compartilhamos o planeta, mas vivemos em mundos mentais distintos e reais.

A maior parte da sociedade brasileira se encontra distribuída entre os MoPe Absolutista e Relativista. Não é uma distância tão grande. Pode não parecer agora, mas é possível conversar e conviver.

Superstição, religião, ciência e caos não são tão distintos como podem parecer à primeira vista.

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© 2020 by Flávio Ferrari