Você é contra ou a favor ?

Quando alguém me pede orientações sobre dietas para emagrecer, minha resposta costuma surpreender.

Claro que, antes de mais nada, gosto de conversar sobre as motivações para o emagrecimento, que levam sempre a uma interessante discussão sobre a autoestima, os padrões estéticos da sociedade, o preconceito, a diversidade, o propósito da vida e outros temas igualmente relevantes.

Mas não fujo da pergunta original. Minha resposta é: quer emagrecer, então coma mais.

Pode parecer uma recomendação estranha, num primeiro momento, mas esclareço. A ideia é, ao invés de lutar para deixar de comer aquilo que engorda, fazer um esforço para incluir alimentos naturais, saudáveis e gostosos na alimentação. É uma missão de exploração e de descobertas, para encontrar novas opções de alimentos, ou aumentar o consumo das coisas boas que já conhecemos.

Foco no positivo, no permitido, em oposição ao negativo e à proibição.

Naturalmente, aumentar o consumo de bons alimentos leva à redução no consumo de alimentos ruins, sem maiores dramas.

A proposta de revisão na dieta é mais extensa, e cheguei a fazer um manual sobre isso.

Mas a conversa deste momento não é sobre dietas. É sobre nadar contra ou a favor da corrente.

A travessia a nado de um rio caudaloso é um exemplo que nos acompanha pelo menos desde os tempos de Lao Tsé, apontado como criador do Taoismo, 600 anos antes do início da era cristã, e perdura nas aulas de Física no ensino básico. A forma mais fácil e eficiente não é atravessar perpendicularmente, mas na diagonal, reconhecendo e aproveitando o fluxo da água ao invés de enfrentar a corrente.

No nosso exemplo da dieta, usar a vontade de comer a seu favor é mais fácil e eficiente do que lutar contra ela.

E esse raciocínio pode ser estendido para a maioria das causas pelas quais lutamos, porque desconstrói falsos paradoxos e congrega energias.

Pessoas que lutam para preservar o planeta contra as que defendem o crescimento econômico explorando recursos naturais podem se unir para promover soluções que protejam (ou sejam menos agressivas) o planeta, apoiadas pelos recursos do crescimento econômico. As energias renováveis são um bom exemplo.

"A polarização gera falsos paradoxos. Ações afirmativas capitalizam a energia para construir."

Uma questão mais complexa e sofisticada é a luta contra preconceitos, porque envolve aspectos culturais e mecanismos de aprendizado e preservação de nossa espécie. Mas é mais eficiente apoiar valores humanistas e estimular a apreciação da diversidade do que lutar diretamente contra preconceitos específicos.

A vontade de comer, o crescimento econômico e o preconceito são como o fluxo da água do rio caudaloso. Podemos nadar contra a corrente ou, reconhecendo sua existência e poder, encontrar formas de utiliza-la a nosso favor.

A diferença é que o rio pouco se modifica com nossa travessia, mas podemos transformar os hábitos alimentares, a economia e a cultura com nossas ações.

Se privilegiarmos os alimentos naturais e saudáveis, se dermos preferência (mesmo que pagando um pouco mais) aos produtos das empresas com práticas sustentáveis e valorizarmos (com nossa atenção) as pessoas e ações humanistas, inclusivas e em prol da diversidade, teremos mais chance de transformar o mundo do que esbravejando contra aqueles que julgamos responsáveis pelas coisas que nos desagradam.

E, acredite, é mais fácil inspirar pessoas a partir de atitudes do que com palavras.

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© 2020 by Flávio Ferrari